Penduradas por uma das mãos, as caixas de madeira, de formato retangular ou, mais comumente, trapezoide, com cerca de 40 centímetros de comprimento por, no máximo, 30 de largura e 15 de altura. Uma peça, também de madeira, em desenho de pé, destaca-se na parte superior, fazendo corpo com a caixa. Sua função principal é apoiar o pé do cliente, mas serve também como alça para ser carregada. Um banquinho completa a estrutura possível de ser transportada manualmente, dessa espécie de estabelecimento itinerante. Outro equipamento básico, a cadeira ou banco para acomodação do freguês, geralmente é emprestado do ambiente onde ocorre o serviço (bares, restaurantes, praças), mas pode ser uma cadeira do próprio prestador, quando este utiliza um ponto fixo de trabalho. Sentado, o cliente tem um dos pés colocados sobre a caixa e o outro repousando sobre o chão. Para um apoio ergonômico do pé, cuja parte anterior se eleva discretamente pela flexão da coxa, mantido o joelho em 90 graus, a altura da caixa tem uma ligeira inclinação anteroposterior correspondente.
Os engraxates podiam estar em qualquer lugar da cidade, mas principalmente na região central. Praça Rodolpho Fernandes, Vigário Antonio Joaquim, arredores do Mercado Público Central. Na calçada dos cinemas, sobretudo do Pax, mas também do Caiçara e do Cid, no início das sessões noturnas e, em maior número, nas diurnas dos sábados e domingos. Ofereciam seus préstimos com uma frase curta e interrogativa: “vai graxa?”, “graxar sapato?”. Vinham invariavelmente dos bairros periféricos. Além das latas de graxa (preta, marrom e incolor), tintas das mesmas tonalidades e, também, a branca para os sapatos das damas, escovas e flanelas, tudo acomodado dentro das caixas, traziam cada um os seus sonhos. Possivelmente não tão grandes, talvez apenas ser alguém calçando um par de sapatos a serem engraxados por outrem. A batidinha com a madeira da escova na caixa alerta o cliente distraído para a troca de pé e interrompe o sonho do engraxate.
Trabalho duro, sujeito às intempéries. Banquinho da altura da caixa, pernas em flexão sobre o tronco, costas sem qualquer apoio, sobrecarga para os músculos posteriores do tórax e região lombar e máxima pressão sobre discos intervertebrais, sobretudo lombares. Postura das mais incômodas imagináveis. Desafio à resistência da coluna vertebral, especialmente dos mais idosos. Não sugere essa dificuldade o comportamento em geral irrequieto e alegre desses operários, trabalhando e circulando pelas ruas e praças com suas caixas. Alegria refletida no couro brilhante do sapato, atestado da excelência do trabalho do engraxate.
