Por: ÂNGELA RODRIGUES GURGEL
Não,
não aceitaremos
convite para comemorar
a Ditadura Militar…
Não vamos celebrar
a dor das famílias
que ainda carregam
na memória
as lembranças manchadas pelo
sangue das torturas…
Não,
não vamos comemorar
esse crime hediondo
que muitos tentam
transformar em glória…
Não,
ninguém vai
nos convencer
que há mérito
em torturar, matar
e manchar de sangue
nossa história…
Perdoe-nos, “senhores”,
mas vocês precisam aprender
a respeitar nosso povo,
nossa gente, nossa história
e nossa indignação…
Não queiram
que façamos festa
sobre o luto
e as chagas
ainda abertas
de todos que viveram
a ditadura militar…
Não,
nós não vamos festejar
a morte, a dor, a tortura,
o sangue inocente derramado,
o horror,
os desaparecidos,
os feridos e mutilados…
Chamar golpe
ou de qualquer outro nome
não vai amenizar
o terror vivido nos porões
de um tempo sangrento
comandado por homens
cruéis e violentos…
Aquele golpe maldito,
arquitetado nos quarteis
foi para as ruas, escolas,
igrejas, praças, campos
e faculdades,
invadiu nossos lares
e torturou aqueles
que lutavam por liberdade…
Ainda não curaramos
as feridas desse período
e não aceitamos ninguém nos dizer
que devemos prestar honrarias
a quem pisou em nossos sonhos,
machucou nossa alegria
e tentou destruir nossa democracia..
Não,
mil vezes não!
Nosso grito não será de saudação,
nossa marcha não será
de louvor ao seu batalhão,
nossa luta continua sendo
pela democracia…
Exigimos mais seriedade e respeito
a memória e história
de todos os mortos e sobreviventes…
Não,
não há o que comemorar!
Nós não vamos
saudar com flores
quem nos feriu com chumbo…
Não,
nós não vamos nos aliar
a quem defende todos esses horrores
e nos envergonham diante do mundo…
Desculpe-nos, mas não há o que comemorar!
Ângela Rodrigues Gurgel, mossoroense de nascença e caraubense de coração. Membro, (afastada das atividades) da AFLAM, ACJUS e ICOP e de alguns coletivos literários. Apaixonada por gente, café e poesia. Uma mulher que nunca desistiu de sonhar e contribuir, mesmo que minimamente, para construção de um mundo que caiba todos os mundos. Avó de Michell e Anne.
