Vendedor que oferece seus produtos pelas ruas, gritando pregões à frente das residências na expectativa de ver sair o cliente interessado, isso é coisa antiga. Mas, os meios de descolamento nesse comércio itinerante mudaram, assim como naturalmente mudaram os produtos oferecidos e sua forma de apresentação. O vendedor ou vendedora cumpria seu trajeto andando, a pé, ambulantes de fato, uma maratona rua a rua, porta a porta. Mesmo quando usavam um animal como ajuda na carga, caminhavam atrás, um no passo do outro. A bicicleta foi um adjutório que veio depois.
Como ainda acontece, cuscuz, bolo e tapioca eram oferecidos no início da manhã e final da tarde. Tapiocas sem adjetivos, simples tapioca, de goma de mandioca e leite de coco, redondas e empilhadas, separadas por pedaços de folha de bananeira. Em certos lugares, como à beira do rio, onde amanheciam as lavadeiras e os carroceiros “botadores de água”, era possível comprar o bolo em fatias, na medida do consumo individual, evitando o custo e o possível desperdício ao adquirir a unidade inteira ou a dificuldade de acomodação para levar para casa. As manhãs e tardes ainda traziam os vendedores de pão, o que já não existe ou, pelo menos, não é comum. Os pães acomodados em balaios, aqueles grandes cestos de cipó levados às costas ou sobre a cabeça pelos “balaieiros”, como eram chamados esses trabalhadores, chegavam direto à família que por comodidade ou outra razão deixava de ir à padaria mais próxima.
Outras necessidades diárias eram habitualmente supridas por esses varejistas domiciliares. Alguns tipos de verduras, por exemplo, e frutas. Outra venda comum à porta era a de pescados do rio. O produto da pescaria era vendido na forma de conjuntos chamados “palhas de peixe”, cada uma com certo número de unidades, conforme o tamanho desse pescado. O nome é explicado pela forma de arranjo desses conjuntos. Os peixes eram transfixados por uma fita de palha de carnaúba ou coqueiro cujas extremidades eram atadas à semelhança de um colar.
No meio da manhã e da tarde passavam os vendedores de cocada, alfenins, broas e uma variedade de coisas, quase tudo dentro de caixotes levados sobre a cabeça, com o indispensável auxílio da rodilha. Dentre esses itens, um hoje totalmente desaparecido nesse comercio de rua, o mel de engenho, mais popular na época com o nome de “mel de furo”. Subproduto da fabricação de rapadura, o mel de furo era trazido em latões que antes tinham servido de embalagem a alguma especialidade industrial. O povo o consumia puro, com farinha, com pão ou de outras formas, todas deliciosas.
