No 7 de setembro de 1922, nas comemorações dos 100 anos da independência do Brasil o discurso do Presidente Epitácio Pessoa, no Rio de Janeiro, capital do país, seria ouvido à distância, em Niterói e São Paulo. Falo sobre ouvir porque, entender mesmo, pouca coisa se entendeu, tal era a (má) qualidade do equipamento de transmissão. Mas, o rádio estava inaugurado no Brasil. Oficialmente, pois várias outras experiências já haviam sido feitas, sem a chancela do governo. A primeira emissora de rádio brasileira viria alguns meses depois, já em 1923. Para o discurso do Presidente a mesma empresa que fez a transmissão trouxe, também, os poucos aparelhos que a captaram. Coincidentemente, também em um 7 de setembro, mas de 1950, inaugurava-se em Mossoró a Rádio Difusora.
O rádio, no início, era apenas novidade tecnológica. Depois, passaria a ser hábito e até necessidade. À sua versatilidade como veículo de entretenimento e informação, muito cedo vai se acrescentar sua instrumentalização no campo da educação e da formação social, política e cultural. Como lazer apresenta programas humorísticos, esportivos, de variedades e, especialmente, musicais. É essencial como divulgador da música, seus cantores e autores. Nesse aspecto é eclético, pois oferece opções as mais populares, incluindo desde a música regional a grandes autores e cantores de sucesso nacional e internacional, mas permite ouvir também a música erudita, dos gênios que ultrapassam séculos com suas obras, justamente por serem gênios.
No momento de sua criação, particularmente no que se refere à informação, destaca-se a instantaneidade com que ela pode chegar ao ouvinte, impossível à imprensa dessa época, mesmo a de publicação diária. E de tal forma o rádio consolida-se com essa função que cria uma extensão do termo jornal, originalmente reservado à publicação impressa e da própria palavra imprensa, que passa a ser adjetivada como escrita e falada. Depois seria televisada e outras mais. Como disseminador de cultura torna-se importante na promoção e divulgação, não só da música, mas também da literatura, do teatro e outras formas de arte.
O espantoso desenvolvimento tecnológico dos dias atuais transformou o rádio e chegou-se ao “podcast”. Mas, há certa saudade do tempo em que era apenas voz. Que com seus ritmos e melodias, faz vibrar membranas, ossículos e fluidos do aparelho auditivo, estimula fibras do nervo acústico, alcança os circuitos cerebrais, ascende a áreas especializadas do córtex onde se associa a memórias subjacentes, ancestrais, transformando-se em “imagem” que cada um constrói de modo único.
