OPINIÃO

O NÁUFRAGO DA LEITURA

POR: TANIAMÁ BARRETO

Há pessoas que se perdem no mar por falta de terra. Outras se perdem em terra firme por falta de livros.

Conheci um homem assim. Caminhava pelas ruas como quem atravessa um oceano revolto, desviando-se das ondas invisíveis do tempo, tropeçando em notícias rasas, em conversas sem profundidade, em dias que vinham e iam sem deixar vestígios. Trazia nos olhos a sede de quem procura horizonte, mas jamais aprendera a navegar.

Era um náufrago da leitura.

Não lhe faltavam mãos para segurar o leme, nem inteligência para entender as estrelas. Faltavam-lhe, porém, mapas. E os livros são mapas secretos: mostram rotas por dentro da alma, revelam ilhas de esperança, tempestades humanas já enfrentadas por outros, faróis acesos pela experiência de séculos.

Sem ler, ele boiava.

Via a pressa das pessoas e acreditava que viver era correr. Escutava opiniões e pensava que pensar era repetir. Assistia ao mundo pela superfície, como quem contempla o mar sem suspeitar dos mistérios que dormem no fundo.

Um dia, porém, aconteceu-lhe um milagre silencioso: encontrou um livro esquecido num banco de praça. A capa gasta parecia um casco antigo sobrevivente de muitas travessias. Pegou-o sem entusiasmo, abriu ao acaso, e uma frase saltou-lhe aos olhos como boia lançada a um desesperado.

Sentou-se.

Leu uma página. Depois outra. Depois mais uma.

As horas passaram sem ruído. O sol mudou de lugar. Os pássaros regressaram aos ninhos. E aquele homem, pela primeira vez em muitos anos, deixou de afundar.

Descobriu que cada livro era uma embarcação possível. Alguns eram jangadas simples, feitas de poesia e brisa. Outros, navios robustos carregados de ciência. Havia os que levavam a terras distantes, os que mergulhavam no passado, os que ensinavam a reconstruir ruínas interiores.

A leitura não o tirou apenas da ignorância — tirou-o da deriva.

Desde então, passou a frequentar bibliotecas como quem visita portos sagrados. Aprendeu a conversar melhor, a escutar melhor, a duvidar melhor. Tornou-se menos presa das correntes alheias e mais dono da própria bússola.

Ainda enfrenta tempestades, como todos nós. Há dias de mar bravo, ventos contrários e noites sem lua. Mas já não teme perder-se. Traz consigo o essencial: uma estante de faróis acesos dentro da memória.

Penso nele sempre que vejo alguém dizer que não gosta de ler.

Talvez não seja desamor. Talvez seja apenas naufrágio.

E todo náufrago, no fundo, espera secretamente por um livro que o resgate.


TANIAMÁ VIEIRA DA SILVA BARRETO (Taniamá Barreto) é professora aposentada da UERN, escritora, sócia fundadora das seguintes academias: AFLAM, ocupante da Cadeira 12; ALAM, ocupante da Cadeira 01; e ACJUS, ocupante da Cadeira 03. É Titular da Cadeira 08 da AMOL e Patronímica da Cadeira 57 do CONINTER

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