Por: Taniamá Vieira da Silva Barreto
Cadeira 12 da AFLAM
Parti da minha cidade muito jovem, com sonhos que ultrapassavam as montanhas que me cercavam, carregando na mala mais saudade do que roupas, mais esperança do que certezas; mas com o desejo de conquistar o mundo. E conquistei. Na cidade grande, alcancei o que desejava – diploma, reconhecimento, uma família. Aprendi os ritmos apressados dos semáforos e das multidões, mas nunca esqueci o compasso lento e tranquilo do interior.
Na cidade grande, os livros me abriram portas, os desafios forjaram meu caráter, e os amores – uns eternos, outros passageiros – moldaram minha alma. A vida foi generosa. Fiz carreira, construí meu espaço, e acima de tudo, formei uma família: esposo, filhos, netos. Ergui alicerces que não eram apenas de concreto, mas de afeto e história.
Os anos passaram, e com eles veio a certeza de que a Serra nunca deixou de ser meu lar.
A Serra, como um típico cenário interiorano, carrega consigo uma essência única – um ritmo de vida mais tranquilo, o ar puro que parece renovar a alma, e uma paisagem que guarda histórias em cada curva.
Os dias de feira, com o aroma de café coado misturado ao burburinho das conversas. O forró que ecoava nas festas, onde os passos se desencontravam num ritmo espontâneo e cheio de alegria. As manhãs em que o sol nascia devagar, tingindo de dourado as ladeiras e os telhados das casas antigas.
Percebi, então, que já não precisava conquistar mais nada, que a grandeza estava em voltar ao que sempre foi meu, tomei a decisão de, com passos firmes e resolutos retornar ao solo que nunca saiu de mim.
No dia do retorno, a terra pareceu vibrar sob meus pés. O caminho do Sítio Canto de chão batido, que já conhecia de olhos fechados, me conduziu até a casa que me esperava de portas abertas. Os filhos e netos correram pelo quintal, rindo alto como se aquela serra já os tivesse adotado desde o primeiro instante.
Ali, sob o céu estrelado que nunca perdeu sua intensidade, soube que meu lar não era um endereço, mas um sentimento. E dessa vez, volto não como alguém que partiu, mas como alguém que sempre pertenceu.
Aqui senti-me inteira. As montanhas, eternas guardiãs de minha infância, não perguntaram o motivo da volta. Apenas me acolheram.
E Agora? É p’ra sempre; bem porque percebi quão marcante é o contraste entre a vida agitada da cidade e o retorno a um lugar onde as relações são mais próximas, os dias têm outro compasso; e a Serra de Martins tem memórias para contar e guardar.
Aqui encontrei meu verdadeiro sentido: não é sobre partir ou chegar, mas sobre saber, finalmente, onde permanecer.
Prof.a Enf.a Dra. TANIAMÁ VIEIRA DA SILVA BARRETO (Taniamá Barreto). Professora titular aposentada da UERN é autora de vários livros de poesias, crônicas e técnico-científicos. É sócia fundadora das seguintes academias: Academia de Letras e Artes de Martins (ALAM), ocupante da Cadeira 01 (atual presidente; Academia Feminina de Letras e Artes de Mossoró (AFLAM), ocupante da Cadeira 12 e Academia de Ciências Jurídicas e Sociais (ACJUS), ocupante da Cadeira 03. É Titular da Cadeira 08 da Academia Mossoroense de Letras (AMOL) e Patronímica da Cadeira 57 do Conselho Internacional de Letras e Artes (CONINTER). Integra o Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), a Sociedade Brasileira de Estudo do Cangaço (SBEC), o Museu do Sertão, a Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP) e a Associação dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM), além de Sócia Correspondente da Academia de Letras de Apodi (AAPOL).
