Discurso oficial de acolhimento às novas imortais da Aflam

Por Symara Tâmara
Boa noite a todos e todas
Mais uma vez, eis-me aqui com a missão de acolhimento em nome de uma instituição da qual eu tenho a honra de ser sócia-fundadora, esta que também fora uma missão assumida, assim como a AFLAM, quando de meus primeiros anos da juventude, em 2007. Naquele momento, tudo que eu senti foi uma imensa vontade e coragem de juntar-me a tão valorosas mulheres e fazer acontecer a cultura na nossa cidade, mas eu não tinha ideia da dimensão do que seria manter viva não só a minha chama de amor pela arte, pela cultura, mas agregar mulheres que já eram parte da geografia humano-cultural, mulheres que, assim como eu, nutriam aquela mesma paixão, mas muitas eram referência para mim e já escreviam seus nomes nas páginas da história como tendo rompido paradigmas ultrapassados e injustiças históricas, quando fizeram aparecer, com muita luta, muita resistência, seus nomes nos livros de história, de literatura, de arte, da política e do desenvolvimento político-social.
Aos poucos, fui compreendendo a missão que me fora atribuída, e que eu, com a coragem de uma jovem estudante de Letras, fui compreendendo o real sentido. Fundar e manter uma academia de Letras, seguir os moldes da academia francesa, não, eu não tinha, até então, dimensão do seria que sistematizar minha missão na cultura, eu que, quinze anos atrás, era apenas uma jovem de vinte e quatro anos, recém-saída dos sonhos primaveris dos primeiros poemas adolescentes, mas que mesmo assim, já havia conseguido publicar minha primeira plaquete de poemas, aos 17 anos. Sim, este momento de comemoração de quinze anos da AFLAM, me vem a pergunta que não quer calar, e a deixo para todas as demais aflameanas como um doce provocação: quem éramos nós quinze anos atrás? O que a responsabilidade de ser corpo de uma instituição cultural com o respaldo sócio-cultural da AFLAM traz para a nossa vida e para o nosso fazer artístico?
Será que todas nós temos a compreensão do que é ser uma mulher das letras e das artes num país que, historicamente, reprimiu tantas que nos antecederam nesse mesmo seguimento? Tivemos que lutar muito para estabelecer nosso espaço e marcar nosso nome. E por que na cultura, por que nas artes? Porque um povo sem cultura é um corpo sem alma, porque a arte foi a primeira forma de comunicação que estabelecemos quando da evolução da nossa espécie, basta que lembremo-nos das pinturas rupestres. Porque foi através da cultura e da educação que as grandes nações do mundo se reergueram depois de crises e guerras arrasadoras, porque o desenvolvimento humano progride quando vemos aumentar o número de escolas e universidades, e não de presídios. Então não tem importância a cultura? Ela que é a parte lúdica da educação de um povo? E esse misto de doçura e resistência chamado mulher não tem importância fundamental nesse contexto? Reflitamos bem, e sem dúvida, chegaremos à conclusão: a mulher é parte fundamental nesse processo, por isso estamos aqui, celebrando quinze anos do fazer lítero-artístico-cultural, e juntas fazemos valer a existência dessa instituição chamada Academia Feminina de Letras e Artes Mossoroense – AFLAM.
E a nossa celebração de quinze anos não poderia ser de forma mais esplendorosa no momento em que muitas de nossas acadêmicas promovem seu dèbut na imortalidade, tratam-se de mulheres que há muito tempo compõem o universo cultural, mas que neste momento, trazem outros nomes de mulheres para compor a plêiade de homenageadas da nossa instituição, algumas como nomes da cultura nacional que ora são homenageados em virtude da relevância cultural que detém pelo conjunto de sua obra, outra por já terem sido primeira ocupante de uma das quarenta cadeiras da AFLAM, sedo assim, cada uma delas recebem o título de imortais, são elas: Maria Goretti Medeiros Filgueira (cadeira 04): Francisca Lenilda da Silva Santos (Cadeira 09); Maria José Araújo Melo de Sousa (Cadeira 11); Joriana de Freitas Pontes (Cadeira 24); Vanja Lúcia Freitas dos Reis (Cadeira 29); e Margarida Costa de Araújo Bezerra (Cadeira 37).
Neste momento, em nome da AFLAM, saúdo a cada uma de vocês e agradeço por escolherem compartilhar conosco deste grande sonho, desta gostosa ousadia de manter viva a chama da paixão, ou melhor, eternizar esse amor pela nossa cultura. Parafraseando a máxima popular de que “juntas somos mais fortes”, e mais ainda, fortalecemos tantas outras a seguirem pelo caminho das letras e das artes. Que cada uma de vocês sinta-se carinhosamente abraçada e acolhida, que esta instituição possa contribuir imensamente para o fazer artístico-cultural de cada uma, e que, juntas, possamos nos fortalecer enquanto instituição. E que agora, como imortais, a mensagem de cada uma ganhe cada vez mais eco na imensidão. Que Deus abenções grandemente cada uma. E que os próximos quinze anos e todas as somas dessa idade sejam de engrandecimento da nossa instituição, da nossa arte, de cada uma de nós, orgulhosamente fazedoras e trabalhadoras da cultura.
Muito Obrigada!
Symara Tâmara (cadeira 03) – É poetisa, escritora, cantora, compositora, pesquisadora e professora. Graduada em Letras pela UERN, com Especialização e Mestrado em Letras também pela UERN. É sócia fundadora da AFLAM e membro da ALAMP. Em 2021 lançou “Tempo”, seu primeiro trabalho autoral de música, nas plataformas digitais. É autora dos livros O zênite da inspiração (poesia, 2000), Antônio Francisco: tradição e modernidade (pesquisa, 2015), Infinita tarde finda (poesia,2022) e Reflexões e fluxos sobre literatura (artigos, 2022).
